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Um guia para conhecer Guiomar Torrezão
Resultados da pesquisa de Iniciação Científica "Filologia em interface com as Humanidades Digitais: a presença de Guiomar Torrezão na Imprensa Periódica oitocentista disponibilizada em arquivos públicos digitais", de Letícia dos Montes Melo, realizada durante o ano de 2025 na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (FFLCH-USP) com Bolsa FFLCH.
Quem foi Guiomar Torrezão?
Guiomar Delfina de Noronha Torrezão nasceu em Lisboa em 26 de novembro de 1844 e faleceu na mesma cidade em 22 de outubro de 1898, aos 53 anos, após sofrer uma lesão cardíaca. Na época, vivia com a irmã, Maria Felismina de Noronha Torrezão.
Romancista, ficcionista, dramaturga, poeta, jornalista, tradutora e ensaísta, Guiomar foi uma das primeiras mulheres em Portugal a transformar a escrita em um trabalho remunerado. Nunca se casou nem teve filhos, dedicando sua vida inteiramente ao ofício das letras.
Filha de José Joaquim de Noronha Torrezão e Maria do Carmo Pinto de Noronha Torrezão, ficou órfã de pai ainda na infância. Para ajudar no sustento da casa, começou cedo a dar aulas particulares de instrução primária e de francês. Essa experiência de trabalho desde jovem marcou o início de uma trajetória literária e jornalística de grande relevância.
Em 1871, ao lado da irmã Maria Felismina, fundou o periódico Almanach das Senhoras. De acordo com Duarte (2007), a publicação teve 56 anos de duração — um marco notável na história da imprensa feminina, já que poucos periódicos desse gênero alcançavam tamanha longevidade.
Mais tarde, em 1887, Guiomar fundou também o periódico O Mundo Elegante. Além disso, foi colaboradora em outros títulos portugueses, como Ribaltas e gambiarras e Diario Illustrado. No primeiro, atuou como redatora e, nos dez números iniciais, assinou seus textos com o pseudônimo Delfim de Noronha; nas edições seguintes, passou a usar o próprio nome. Já no Diario Illustrado, publicou tanto sob sua identidade real quanto com o pseudônimo Gabriel Cláudio.
Antes de Torrezão, já havia a Imprensa Periódica
A imprensa periódica em Portugal ganhou forma definitiva com a Gazeta de Lisboa (1715-1760), embora já houvesse práticas de escrita jornalística no século XVII. Durante as Guerras da Restauração (1640-1668), surgiram publicações criadas para relatar os acontecimentos político-militares e difundir a propaganda da Coroa, reforçando o sentimento patriótico (Dias, 2019, p. 28). Entre os títulos que antecederam a Gazeta, destacam-se o Le Mercvre Portvgais e o Mercvrius Ibernicvs.
Quando a guerra terminou, em 1668, a produção periódica entrou em pausa. Nesse intervalo, a comunicação passou a se apoiar em formatos mais simples, como folhas volantes e relações de acontecimentos. Só em 1715, com a circulação da Gazeta de Lisboa, o país contou de fato com um veículo estável, voltado aos setores mais instruídos e responsável por conectar o reino português às cortes europeias e às hierarquias nacionais (Dias, 2019, p. 46).
No século XVIII, embora a produção literária de autoria feminina fosse rara, ela existia. Um exemplo marcante é a obra Máximas de virtude e formosura, assinada sob o pseudônimo Dorothea Engrássia Tavareda Dalmira, que recebeu elogios pela erudição e pela dimensão moral na edição de 17 de agosto de 1752 da Gazeta de Lisboa.
Vale lembrar que a chamada imprensa feminina surgiu antes mesmo do movimento feminista. Como observa Rosmarie Lamas em Mulheres para além de seu tempo (1995), publicar como mulher já era, por si só, um gesto pioneiro de emancipação. Em 1807, apareceu o Correio das Modas, considerado o primeiro periódico direcionado ao público feminino, que ajudou a consolidar a leitura como hábito cotidiano entre as elites. Anos depois, o Voz Feminina (1868-1869), coordenado por Francisca d’Assis Martinz Wood e Guilherme Wood, assumiu um tom mais emancipatório, difundindo ideais como “A mulher livre ao lado do homem livre” (edição de 3 de janeiro de 1869).
Nesse mesmo espírito, o Almanach das Senhoras (1871-1928) destacou-se ao incentivar a solidariedade entre escritoras lusófonas, consolidando um espaço de protagonismo literário feminino (Araújo, 2008, p. 149).
Enquanto isso, no Brasil, a imprensa oficial só teve início em 1808, com a chegada da Família Real. Antes disso, três tentativas de implantação haviam fracassado, sempre barradas pela Coroa, que buscava manter controle rígido sobre a vida cultural e intelectual da colônia (Lopes, 2008, p. 1).
A situação mudou com a abolição da censura em 1821, que abriu caminho para a multiplicação de periódicos. Esses impressos estimularam debates sobre a independência e acolheram uma diversidade maior de vozes. Durante o período imperial, surgiram publicações voltadas especialmente às mulheres, como o Jornal das Senhoras, que ampliaram os horizontes da imprensa ao incluir discussões sobre literatura e aspectos do cotidiano feminino.
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Para conhecer Guiomar Torrezão e sua participação na Imprensa Periódica lusófona
A produção escrita de Guiomar Torrezão foi levantada a partir da Hemeroteca da Biblioteca Nacional Digital e do livro A Mensageira: revista literária dedicada à mulher brasileira (v.2), disponível na Biblioteca Brasiliana Guita e Mindlin. Esse levantamento resultou em 65 ocorrências, datadas entre os anos de 1870 e 1899, incluindo contos, poemas, crônicas, artigos de opinião, folhetins e outros gêneros assinados pela autora.
A catalogação foi organizada em formato de tabela, contemplando informações como: o periódico em que o texto foi publicado, o ano e a edição, o título e/ou observações pertinentes, além do link de acesso direto para a base da Hemeroteca (quando disponível) ou a indicação da página no livro.
A seguir, apresento os resultados desse trabalho de catalogação.
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Referências
ARAÚJO, Maria da Conceição Pinheiro. Tramas femininas na imprensa do século XIX: Tessituras de Ignez Sabino e Délia. 2008. Tese (Doutorado) — Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul. Rio Grande do Sul, 2008.
BARP, Guilherme; ALBERT ZINANI, Cecil Jeanine. A Mensageira, um periódico feminista do século XIX. Revista Eletrônica do Instituto de Humanidades, [S. l.], v. 21, n. 47, 2019. Disponível em: https://publicacoes.unigranrio.edu.br/reihm/article/view/5908. Acesso em: 12 set. 2025.
DIAS, Eurico José Gomes. A Gazeta de Lisboa (1715-1760) enquanto paradigma da imprensa periódica portuguesa setecentista. População e Sociedade, CEPESE, volume 32, dez/2019, pp. 24-50.
FLORES, Conceição; DUARTE, Constância Lima; MOREIRA, Zenóbia Collares. Dicionário de escritoras portuguesas: das origens à atualidade. Florianópolis: Mulheres, 2009.
MELO, Letícia dos Montes. As “Cartas Lisbonenses” (1879-1880) de Guiomar Torrezão: a educação feminina no Brasil oitocentista e o elo Portugal-Brasil no periódico paraense O Liberal do Pará. Linha D’Água, São Paulo, v. 37, n. 4, p. 158–172, 2024. DOI: 10.11606/issn.2236-4242.v37i4p158-172. Disponível em: https://revistas.usp.br/linhadagua/article/view/225876.. Acesso em: 25 jun. 2025.
NEVES, H. Mulheres na Primeira Guerra Mundial: mudança e permanências. Revista ResPública, v. 14, 2015. p. 69-113.